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Concluindo.

quarta-feira, dezembro 30th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

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Com este post, termino minha contribuição e também se conclui o blog. And I gotta tell’ya, it was fun! Dividi-me em três tarefas: falar de psiquiatria sem ser absolutamente técnico, informar e sintetizar o que já havia sido dito aqui. O mais difícil foi não assumir um discurso técnico, pois com o tempo se ganha um cacoete que engessa e é quase impossível de contornar. Ou seja, foi um belo exercício e foi divertido.

O que houve aqui foi uma fotografia do nosso tempo, dos comportamentos, da música, das insatisfações. Desvios do comportamento sexual existem e vale a pena saber deles, entender como socialmente lidamos com eles, como se faz a coisa do ponto de vista médico. Mas, afinal de contas, tudo isso é para se gozar mais e melhor da presença de um companheiro, de dividir e de amar, como F. Rampazzo confidenciou em seu último post.

Existe um tipo de amor responsável, que lida com o outro sem desfaçatez ou indolência, aquele que se preocupa com a própria saúde e com a do parceiro (e, portanto, usa camisinha), é autêntico no sentido de não fazer uso dos sentimentos dos outros e não é perverso. A esse tipo dedico o que escrevi.

Desejo, com o início do ano de 2010, que meus leitores se embriaguem desse mesmo amor poético ou não, do amor real e possível, cheio de intransigências, como ele normalmente se apresenta a todos.

America’s Next Top Model.

segunda-feira, dezembro 28th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

As modelos são a combinação perfeita entre habilidade e beleza? Deveriam ser. Afinal de contas, elas carregam nas passarelas as roupas que ditam a forma na qual muitos se inspiram para se vestir. Na prática, as top models também se tornam celebridades, pessoas que provocam um interesse popular, uma identificação com a beleza. Muito frequentemente são metas para muitas mulheres e desejadas por muitos homens.

Claro que essas considerações merecem os devidos enquadramentos. No Brasil, o perfil de beleza difere em algum grau daquele dos países desenvolvidos, isso é conhecido. Mas, de uma forma ou de outra, essa idealização das modelos passou por um episódio interessante recentemente.

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Aconteceu na nona série do America’s Next Top Model, com a seleção de Heather Kuzmich. Modelo de 21 anos, nascida em Indiana, desajeitada, incapaz de entender certas piadas ou de manter um contato adequado por meio do olhar. Isso acontecia por ser portadora de Síndrome de Asperger, com todos os comemorativos da síndrome. O resultado foi interessantíssimo: a garota foi considerada a favorita dos telespectadores em oito semanas seguidas e chegou ao top five antes de ser eliminada.

Dividia a casa com outras concorrentes e, durante o programa, elas faziam piadinhas, caçoavam de seu jeito e da sua maneira de falar. Não conseguiu manter o desempenho quando lhe foi necessário exatamente o que lhe faltava: contato social, falar para uma câmera em um comercial, etc. Mas permitiu a abertura de um olhar diferente sobre o programa, sobre as modelos e sobre a doença. Nunca se falou tanto da Síndrome  nos Estados Unidos como quando a revelaram na participante no ANTM. A garota, ao ser eliminada, recebeu inúmeros convites de trabalho pela beleza, pelo rosto que satisfaz os interesses dos fotógrafos e marcas.

Ela é realmente muito bonita, mas será que levantaria algum interesse se a conhecêssemos em um bar? De qualquer forma, o tempo mudou e os transtornos psiquiátricos têm perdido progressivamente a tonalidade trágica que tinham no passado.

Total flex.

segunda-feira, dezembro 21st, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

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Outro dia ouvi falar que uma determinada garota era flex. Eu demorei para entender a brincadeira, mas fui levado a pensar no caminho que o movimento GLS teve que atravessar para que os gays e bissexuais fossem respeitados e conseguissem, hoje, ser tratados sem preconceito. Muita gente não sabe, mas a orientação homossexual já constou de critérios diagnósticos na psiquiatria como se fosse doença, imagine só!

O tema é tão improvável para mim, que tive de fazer uma revisão breve. Como já foi dito, as classificações psiquiátricas (DSM) são úteis para aproximar a comunicação entre os médicos e para que os pacientes possam entender melhor o que é diagnosticado. No princípio do DSM, aparentemente havia mais interferência cultural entre as listagens das doenças, o que foi sendo progressivamente substituído por evidências científicas. Mas o entendimento de que a orientação sexual se tratava de doença existiu no DSM até a sua segunda versão, houve idas e vindas na terceira, mas não continuou na quarta, aquela que é utilizada atualmente na prática diária. Foi com os trabalhos pioneiros de Kinsey, com a militância de Milk e o consequente estabelecimento do movimento GLS, que houve um recuo da posição da Sociedade Americana de Psiquiatria.

Ficam, para os interessados, as inúmeras páginas da Wikipedia em inglês e os filmes “Kinsey: Vamos Falar de Sexo” e “Milk: a Voz da Igualdade” para enquadrar o tema no tempo da evolução desses conceitos.

A orientação sexual em nossa cultura tem sofrido progressivamente menos preconceito e os gays têm alcançado o seu espaço em função da ação do movimento GLS. Além disso, existem algumas evidências científicas de que essa população não se diferencia da população geral em diversos aspectos e vive uma vida saudável, ativa, produtiva e feliz. Certamente, não voltará a ser considerada doente nas próximas classificações. A tendência atual é considerar que são mais suscetíveis a certos transtornos em algumas fases da vida, mas sinceramente não é necessário evidência para tal afirmação, afinal, somos todos suscetíveis a certos transtornos em certas fases da vida, não é mesmo?

Não obstante os avanços, eventualmente são noticiadas agressões contra homo/bissexuais mesmo em São Paulo. Para isso, que haja uma polícia eficiente.

Receitas para a vida sexual.

sexta-feira, dezembro 18th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

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Quando se procura por um psiquiatra no consultório, frequentemente é para encontrar respostas para problemas pelos quais se está passando. Como já escrevi em posts anteriores, sexo faz parte de uma vida saudável e, é claro, aparece sempre como tema em consultórios. “Como devo fazer para melhorar minha vida sexual? O que eu falo para minha parceira ou meu parceiro? Ela/ele não quer mais ter relações, perdeu o interesse em mim?”.

Sexo movimenta os relacionamentos e a diminuição do interesse sexual que surge ali pode refletir inumeráveis circunstâncias. Portanto, não existe uma resposta adequada a todos, mas, com o tempo, e conhecendo-se o paciente, pode-se tentar algum tipo de orientação.

Este espaço é prova de que podemos falar muito sobre o tema. Observem que já se passou um ano inteiro com diferentes contribuições e pontos de vista acerca dele. A internet é mesmo um bom termômetro para a coisa toda. A Lalai, por exemplo, garimpou objetos e comportamentos interessantes. Ana Laura escreveu um post engraçadíssimo sobre por que parceiros de filmes deram ou não certo. Ambas revelaram músicas para se dividir com os parceiros, e todos tentaram escrutinar o que existe no sexo que nos faz tão curiosos sobre ele.

A mesma motivação para tudo que se escreveu me parece ser aquela do paciente, mas com a particularidade que o paciente chega com um sofrimento para relatar. Ele pede respostas imediatas, uma medicação, se for possível. Mas uso o mesmo argumento da variedade e da diferença de comportamentos que agradam ou desagradam individualmente, e fico com uma resposta vaga, por obrigação, de que “senhora/senhor, não há uma resposta para sua pergunta” ou “não posso te dizer o que você deve fazer com a sua vida”.

Conversem, conversem, conversem! Fale com o seu parceiro sobre a sua insatisfação, tentem encontrar um lugar que seja confortável para ambos, não existe uma fórmula que se possa dar e que vá dar certo em qualquer circunstância ou para qualquer casal.

A sexualidade no idoso.

quarta-feira, dezembro 16th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

Creio que ainda haja quem pense que idosos não têm ou não podem ter uma vida sexual como os adultos. Isso é tão introjetado culturalmente que existe até marchinha de carnaval dedicada aos velhinhos: “A pipa do vovô não sobe mais…”. Felizmente, a forma como encaramos a sexualidade entre os idosos vem mudando.

Em 1907, Alois Alzheimer definiu uma patologia resultante das “consequências naturais da senilidade”. Cem anos depois, trabalhamos com um outro paradigma. Consideramos o envelhecimento uma condição que fragiliza, não que causa a  doença. Há pouco tempo, definiu-se o conceito de envelhecimento bem-sucedido, o que quer dizer que o indivíduo pode envelhecer com saúde até aproximadamente o momento da morte. Senilidade, por outro lado, hoje define o envelhecer com doenças crônicas.

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Um dos objetivos da geriatria é oferecer conhecimento para os indivíduos, principalmente os que estão fora da faixa etária geriátrica, para um envelhecimento saudável. Existem, inclusive, metas já propostas para se alcançar esse estado, como manter atividades físicas frequentes, reduzir o nível de colesterol, etc. Mas vamos à sexualidade nesse contexto: da mesma maneira, há estudos demonstrando que o envelhecimento não define perdas funcionais dos órgãos sexuais, como se pensava no passado. O idoso pode manter a capacidade de ereção e, em alguns estudos, demonstrou-se que os idosos do sexo masculino podem desenvolver, inclusive, melhor controle sobre a ejaculação.

Entre as idosas, as alterações do climatério podem produzir dor no ato sexual e diminuição da libido. Contudo, na mesma medida em que o conhecimento sobre os processos fisiológicos do envelhecimento aumentaram, também avançamos em termos de medicações e terapias que podem melhorar a qualidade de vida dos indivíduos que desenvolveram algum desses sintomas. Portanto, o Viagra® e a reposição hormonal têm importante papel na melhoria da qualidade de vida e são, hoje, amplamente prescritos.

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Para além das terapias medicamentosas, a orientação das modificações próprias das relações nessa fase da vida é uma abordagem importante. O idoso tem de lidar com a perda de amigos e irmãos, com um ambiente urbano muitas vezes inadequado para a lentificação de seus reflexos e da psicomotricidade, etc. A sexualidade e a libido podem ser expressão da forma como os idosos lidam com eventos de vida como esses.

Com o aparecimento de uma ideia de envelhecimento bem-sucedido, as psicoterapias ampliaram seu escopo. Originalmente, Freud tinha ressalvas quanto à aplicação da psicanálise no idoso. Com efeito, na sua época era difícil de imaginar que uma terapia demorada pudesse ter alguma indicação, já que o sujeito não sobreviveria ao processo todo. Mas acho que todos os leitores deste blog já estão cientes das últimas estatísticas do aumento da expectativa de vida em muito países, mais pronunciadamente entre os não-desenvolvidos, coisa que não existia na época em que Freud escreveu sua teoria. Hoje as psicoterapias são amplamente indicadas e podem ajudar os idosos a lidar com as circunstâncias de vida próprias de sua faixa etária.

Portanto, há sexo entre idosos e os idosos de hoje querem manter o mesmo padrão de vida sexual que tiveram durante a juventude. Melhor ainda, hoje podem fazer uso de diversas opções que seu geriatra pode lhe oferecer para uma vida sexual saudável.

Freud.

segunda-feira, dezembro 14th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

Freud foi um pensador de grande importância para a psiquiatria. Em sua primeira fase, ele atribuía todo comportamento neurótico a um trauma sexual que o paciente teria vivido em sua infância, e posteriormente passou a admitir que esse trauma poderia ser imaginário. Ele tomou uma nova postura sobre a infância e identificou comportamentos sexuais que se desenvolvem no período, contrariando a noção popular de que a criança é um ser assexuado. Finalmente, construiu toda uma teoria em torno de suas observações sobre pacientes com histeria, da qual emanaram os dois pontos de vista que citei.

Suas construções levam em conta pulsões sexuais que se desenvolvem na triangulação edípica. Não se referem, na maior parte das vezes, ao ato em si, mas às consequências de fantasias de cada paciente.

Para mim, o maior mérito dele com essa técnica que desenvolveu, a psicoterapia, foi chamar a atenção dos pacientes para a necessidade de refletir a respeito de seus comportamentos e problemas. A reflexão não apenas surge quando se está sozinho em uma sala silenciosa, mas também se constrói na interação com uma outra pessoa. Isso pode ocorrer socialmente, é claro, mas também, no caso da pessoa que sofre, no contato com o psicoterapeuta.

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O que isso tudo tem a ver com este blog? Freud iniciou as condições necessárias para a massificação do conceito de tabu, que ele definiu. Esse conceito, por muitos anos, foi usado para dar ensejo à liberação sexual e à superação dos preconceitos contra comportamentos relacionados com o sexo e a sexualidade. Felizmente, a psicoterapia transcendeu essas questões (que são de grande importância) para dar conta de problemas que vêm se intensificando em nosso tempo, a saber: a depressão, os transtornos de personalidade e até o crime.

Também houve, com o nascimento da psicanálise, a abertura para outros tipos de psicoterapia. Diversas linhas filosóficas tentam impor seus pontos de vista na psicoterapia, o que permitiu o nascimento da Gestalt-terapia (de bases estruturalistas), da terapia fenomenológico-existencial, da terapia cognitivo-comportamental e de diversas outras. Ainda não há evidência definitiva de que uma seja melhor que as outras, mas há mais estudos com a terapia cognitivo-comportamental e, por isso, ela está sendo cada vez mais indicada por médicos nos tratamentos.

Modernamente, também temos evidências claras do efeito das medicações, o que contribuiu para o tratamento do paciente com queixas psíquicas. Elas são consideradas, hoje, de primeira escolha para a maior parte das doenças.

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As doenças são hoje relacionadas em códigos para unificação dos termos e melhor compreensão entre os médicos e pesquisadores. São os famosos Código Internacional de Doenças (CID-10) e DSM-IV. Há outros códigos regionais. Por exemplo: Cuba mantém um código próprio. Também não se usa o termo doença, mas transtorno (na tradução brasileira), em virtude de não haver uma etiologia definida para os fenômenos psíquicos patológicos.

Este post pretende dar uma base, ainda que superficial, para os que virão, pois vamos passar para uma segunda parte da minha participação aqui. Nela, pretendo me aproximar propriamente da posição médica diante dos desvios e dos diversos comportamentos relacionados com a sexualidade. Então, até lá!

Bullying e consequências.

sexta-feira, dezembro 11th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

Não sabemos dar a adequada relevância aos acontecimentos. Foi o que aconteceu no recente caso da Geisy, na UNIBAN. Absolutamente banal, conseguiram transformá-lo em uma grande coisa. Já fui universitário, sei que esses comportamentos acontecem. Mas, conforme a exposição das imagens na rede e a pressão da TV em torno surgiram, a universidade expulsou e desexpulsou a garota, e isso, de qualquer forma, leva a discussões. A garota tem responsabilidade sobre o que aconteceu? Ela decide como se vestir, sobre isso não existe dúvida. De outra parte, seus colegas não têm justificativa para o comportamento agressivo.

Está bem claro que o comportamento de grupo é bastante diferente do comportamento individual. Existe, no comportamento em grupo, em certas circunstâncias, uma exacerbação de atitudes agressivas. Isso se desenvolve até em grupos terapêuticos. Mas a história de Geisy é outra coisa. Já há quem classifique aquilo como bullying, um comportamento agressivo, em que a vítima é repetidamente humilhada ou ridicularizada. Mas eu, quando penso em bullying, penso em crianças, não em marmanjos barbados que se autoconduzem livremente. Penso em intelectos em desenvolvimento, não em gente que já trabalha, tem suas posses e até filhos.

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Há também o significado que cada um dá à forma como se veste. Escolhe-se uma roupa para diferentes objetivos e, obviamente, circunstâncias. Comentei sobre estética anteriormente, vestimenta é uma expressão, em última análise, da própria sexualidade ou para os rituais mais diversos. Transmite símbolos, seja riqueza, prosperidade, progresso ou luto. Em sociedades superiores, tem funções de determinação de estilo ou preferências estéticas. No nosso meio, a expressão sexual é mais frequente. Mas vale mesmo a pena parar a faculdade?

O ambiente universitário deve ser solene. O que se passa ali não está relacionado com sexo, mas com o aprender, com a ordem e com a dedicação. Porém, não sejamos ingênuos, todos sabemos que não é assim. É uma pena.

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A forma como ela se vestia poderia estar mais adequada para uma balada, para outras circunstâncias. Aliás, a normalidade pode estar relacionada com essa mesma noção de adequação. Já comentei anteriormente sobre isso e neste mesmo blog há inúmeros exemplos de comportamentos sexuais. Sexo complementa a saúde individual e tudo aquilo a ele relacionado tem sentido na intimidade do casal. Aquilo que atravessa normas de adequação costuma passar para o lado do desconforto.

A sociedade determina o que é inadequado, até o codifica em forma de lei, quando lhe dá grande valor. Existe, por outro lado, uma série de comportamentos que são considerados inadequados, mas que não estão codificados pela lei. Isso é ética. Há uma expectativa sobre o comportamento em grupo, para a qual socialmente não se vê necessidade de codificação, mas espera-se que todos se comportem em conformidade. Essas noções não subvertem a determinação individual, mas não se pode esperar que as atitudes individuais não levem a consequências. Portanto, que cada um se submeta às consequências resultantes de suas atitudes.

Sexo e teatro.

quarta-feira, dezembro 9th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

Uma das minhas melhores lembranças recentes sobre sexo tem a ver com o teatro. Assisti ao “Avenue Q”, musical premiado na América. Lembro-me de ter comentado  com amigos, antes da peça, que se tratava de um tema adulto com referências de programas infantis, como “Vila Sésamo”. Assisti ao musical e ele possui, efetivamente, um tema adulto. Mas isso não impediu a paulistanada de levar suas crianças.

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Os personagens mantêm relações sexuais no palco (são bonecos, vale explicar para quem não assistiu). Peça muito interessante, mas que me fez pensar como os paulistanos julgam o teatro para as crianças. É uma peça que se refere a programas infantis, mas guarda um conteúdo marcadamente adulto. Não teriam lido a sinopse? Acho difícil. De qualquer forma, fiquei impressionado com a reação da plateia com as
piadas preconceituosas, principalmente as raciais. Foram minutos de gargalhadas. “Everyone is a little bit racist”. Com exclamações desse tipo as piadas são amenizadas, como se o fato de aquele pensamento racista estar presente na consciência de toda a plateia fosse justificativa para tal julgamento. Mas triste é que, com as piadas contra os negros e judeus, a plateia parecia se divertir.

No último fim de semana, fui assistir a “A Alma Boa de Setsuan” e me senti incomodado da mesma maneira. O texto é angustiante, a única alma boa passa a explorar as pessoas da comunidade e termina com o mesmo deus que abre a peça, concluída desistindo-se da personagem principal. Pois a conclusão é mesmo de que não se encontrava alma boa nenhuma, mesmo ali onde parecia existir uma, à primeira vista. Contudo, durante todo o espetáculo, há grande comoção cômica da plateia, com longas gargalhadas, enquanto se testemunha uma história de profunda miséria e desumanidade. No clímax, quando a prostituta está sendo julgada, há um personagem que bate duas colheres fazendo um barulho insuportável, que obviamente incomoda  quem assiste. O policial da pequena vila decide se manifestar e recolhe as colheres do maldito personagem. É um artifício da montagem da peça, que pretende provocar comédia na cena mais solene. Mas, novas gargalhadas do público, exatamente quando a personagem principal será julgada pela postura que tomou com os outros moradores da vila. Será ela uma alma boa ou não? A coisa se perde totalmente na ensandecida plateia e eu, de minha parte, fico constrangido.
dogville-grundriss2 A peça me lembrou Lars Von Trier, com “Dogville”. O filme e a peça são extremamente sofridos, histórias que de maneira nenhuma me levam ao cômico, mas à violência. Só que, na peça, há subterfúgios para amenizar o clima, sem entretanto esconder o sofrimento no texto. De qualquer forma, vale a pena assistir aos dois.

É melhor parar por aqui, pois costumavam me avisar que fugir do tema na redação dava um excelente zero na nota final. Nunca vi isso acontecer na prática, mas voltemos a falar de sexo.

Twitter, autores e ideias.

segunda-feira, dezembro 7th, 2009

Luis Fernando especial para Olla Blog.

Abri, não faz muito tempo, uma conta no Twitter. Quase que coincidentemente, descobri que Fernanda Young decidiu posar nua para a Playboy. Ela deu justificativas: é a primeira coelhinha com livros e peças publicadas, etc. Mas volta aquele mesmo constrangimento de antes: há justificativas para se posar? Não é necessário. Certo é que não tem nada a ver com seus livros ou com sua biografia. Assisti a algumas das produções baseadas nos seus textos e as considero razoáveis, porém duvido que seu leitor realmente tenha interesse em sua nudez. O que se escreve tem muito mais a dizer do que o escritor em si.

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Já li uma biografia de Sartre e talvez eu o respeitasse mais se não a tivesse lido. Falha minha. Suas ideias têm mais a dizer do que a forma como conduziu a sua vida. Vivia o que se chama hoje de relacionamento aberto, cada um em sua casa, com tantos outros parceiros que tivessem vontade de ter. Acho mesmo que, apesar de tanto tempo de convívio, havia uma reverência de Simone de Beauvoir para com Sartre e, não consigo evitar considerar, talvez fosse intolerável ter um relacionamento definitivo com um sujeito feio como aquele. Para mim, ele e Simone eram uns atrapalhados, pois com o relacionamento aberto que tinham de comum acordo, sofriam de ciúmes com os demais parceiros, brigavam eventualmente, etc. A mesma coisa pode-se dizer sobre Kafka. Aliás, esse é meu escritor predileto. Ele nunca falou sobre sexo
diretamente, mas existe uma autora polonesa que fez uma ficção epistolar sobre ele, e há ali algumas anotações sobre uma experiência do Kafka (personagem) com uma prostituta, e Anna Bolecka, a autora, é tão cuidadosa em sua criação que eu não consigo pensar em uma circunstância mais verossímil: Kafka, com sua neurose, inquieto e maculado pelo vergonhoso hábito de visitar o prostíbulo, com dúvidas e reticências com a prostituta. Tudo muito bem escrito. Mas o que mais existe
entre a literatura e o sexo?

O sexo foi dos temas mais importantes do Marquês de Sade, seus livros têm uma descrição anatômica sobre o ato e sobre diversos tipos de comportamento. Não deixo de pensar que era uma versão medieval daquilo que, na modernidade, são os filmes pornôs. Hoje, há até atrizes pornôs de renome, já se sabe. Sade também ficou com o seu quinhão de sucesso, inclusive com um filme dedicado a ele.
http://www.cineplayers.com/filme.php?id=1795 A literatura associa-se ao ponto de vista de sua época, naturalmente. Por outro lado, Sade foi citado e estudado por diversos pensadores. Primeiramente, a libertinagem foi confundida com liberdade. Simone de Beauvoir usou as anotações de Sade para exemplificar uma forma precoce de existencialismo. Lacan, posteriormente, associou textos de Sade à teoria kantiana. Não sei se sou um mau leitor, mas, para mim, ele é um precursor da pornografia e só.
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Recentemente, acompanhei um amigo a uma livraria. Havia lá um livro sobre a história dos gibis pornôs. Não faltam anotações sobre o tema entre os gibis, de textos com temas futuristas a remakes de contos infantis, como “A Bela Adormecida”. A história em quadrinhos, aliás, parece viver uma fase boa no Brasil, tal a profusão de novos livros nesse formato. Aliás, o próprio Proust teve a sua versão em quadrinhos.

A literatura também abre discussão sobre a patologia, quando se aproxima da infância. “Lolita”, de Nabokov, é um exemplo: uma adolescente que seduz um cinquentão. Nabokov possui um discurso absolutamente direto e claro, um dos escritores que mais me agradam. Mas, na esteira dessa intersecção entre a infância e a sexualidade, para além das noções mais modernas sobre a infância, também está a patologia. A pedofilia é hoje um problema de difícil abordagem que leva médicos a discussões éticas
inacabáveis. O crime deve ser julgado pelo ato, penso eu. Pedofilia é inaceitável. Portanto, passemos adiante, pois prometi não me fixar em questões técnicas e, além do mais, penso em abordar isso posteriormente.

Literatura e sexo.

sexta-feira, dezembro 4th, 2009

Luís Fernando especial para Olla Blog.

Recentemente, reiniciei minha leitura de Marcel Proust. Com “O Caminho de Guermantes” concluí que, se ele ainda fosse vivo, seria um apresentador de programa de celebridades. Uma brincadeira, Proust era brilhante. Mas a sexualidade, para ele, tinha outro enquadre. Ele gozava com o estilo de vida, as roupas e o comportamento daqueles que amava. Como crítico literário, frequentava a nobreza em seu declínio, mas guardava por ela grande admiração.

Não é muito diferente de hoje em dia, pois é exatamente o comportamento que continua nos excitando, haja vista os posts anteriores. Os objetos entraram na discussão, evidentemente. Mas é mesmo uma novidade que sejamos mais ousados? Não sejamos ingênuos. Decerto, naquela época isso já era objeto de grande curiosidade. Por exemplo, já existia o Marquês de Sade e sua concretude acerca do sexo. Volto a Sade posteriormente.

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Proust foi dos poucos autores a escrever abertamente sobre a homossexualidade masculina e a feminina, e é motivo de estudo, pela obra e pelo ponto de vista que assumiu em seus textos. Engraçado que, pensando nisso, sou levado a recordar o filme “Pequena Miss Sunshine”, no qual o tio da personagem principal era homossexual e um pesquisador sobre Proust.

Lembro-me dele e o indico para os meus leitores. Mas, voltando a Proust, ele escreve, por exemplo, em “A Fugitiva”: “Os homossexuais seriam os melhores maridos do mundo, se não representassem a comédia de amar as mulheres.” E, depois de ter reescrito toda a sua vida em uma extensa obra, termina o ciclo de livros afirmando que a vida realmente vivida é aquela da literatura. Não penso que isso valha para todos, mas é verdadeiramente bonito. Estética e sexo têm tudo a ver, aliás. Os acessórios e os adornos acrescentam à beleza. A mulher bela não é apenas a sua imagem nua, seu corpo, mas aquilo que encontramos socialmente - ela e os adornos, motivo de trabalho daqueles que lidam com moda. Aproveito para citar um blogueiro em posts anteriores: Wakabara anota em um de seus textos que, quando a recessão aparece, aqueles que fazem moda procuram trabalhar com estilos mais econômicos e sensuais. Ele não mente quando afirma que sexo é barato e depende do custo apenas de uma camisinha.

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Um dos autores modernos mais interessantes é Amós Oz. Em um de seus últimos livros, “Sobre Amor e Trevas”, há uma das descrições mais belas da primeira experiência sexual, com uma moradora do Kibutz, onde ele decidiu viver em sua adolescência. É um livro autobiográfico, em que ele conta como figuras familiares e determinados episódios de sua vida interferiram em seu pensamento como escritor. Recentemente, ouvi dizer que a primeira relação se dá em condições que dependem das circunstâncias em que se vive. Penso, por outro lado, que é exclusivamente uma escolha. As contingências são obrigatoriamente imprevisíveis e, entre as diferentes possibilidades, escolhe-se sempre uma. Se foi satisfatório ou não, cada um que lide com as suas memórias e saiba como conviver com elas.