Luís Fernando especial para Olla Blog.
Como prometido, algumas observações sobre a psiquiatria e os desvios do comportamento sexual.
Doença mental é a perda da liberdade. No caso específico dos transtornos do comportamento sexual, existem dois grandes limites. Primeiramente, aquele do incômodo que o próprio indivíduo sente com o seu comportamento e, na outra ponta, o incômodo social, ou seja, quando a comunidade define tal comportamento como inaceitável.
Para o lado do crime estão o exibicionismo e a pedofilia. Ambas as condições estão envolvidas com questões éticas. Por exemplo, deve o médico que atende ao pedófilo denunciá-lo? O Conselho Federal de Medicina e o Conselho Regional de Medicina discordam entre as condutas. Para o Conselho Regional, melhor é denunciá-lo. Para o Federal, não. Para este, melhor é que não se denuncie, pois essa conduta pode permitir que outros pedófilos procurem tratamento. No caso contrário, não o fariam em virtude do risco de serem expostos pelo seu médico. Eu me alinho com o Conselho Regional: devem ser denunciados. Ainda assim, é uma questão intensamente difícil no consultório. Sobre o tema, indico o filme “O Lenhador“, com Kevin Bacon, de Nicole Kassel, que dá uma ideia das implicações e variações que existem entre os diferentes pedófilos. Aliás, fico citando filmes aqui, mas já há dois psiquiatras que recentemente publicaram um livro sobre essa aproximação entre cinema e psiquiatria. Chama-se “No Avesso da Tela: a Psiquiatria pelo Cinema, de José Paulo Fiks e Andres Santos Jr. Lá pode-se encontrar novos exemplos, de outros filmes que não citei.


Outras patologias normalmente surgem no consultório quando há algum desconforto do paciente (egodistonia é o nome técnico para esse fenômeno). Tais condições estão relacionadas com o prazer ao olhar ou ser olhado. É o caso do exibicionismo, uma condição que aparece no gênero masculino e é caracterizada pelo ato de mostrar o órgão genital para pessoas estranhas. Voyeurismo diz respeito a ter prazer em ver pessoas nuas ou mantendo relações sexuais. O fetichismo é outra patologia interessante, na qual o paciente desenvolve um desvio de interesse por determinado objeto inanimado como roupas íntimas; por vezes é tão intensa que aquele determinado objeto pode adquirir propriedades mágicas e dominar o interesse do paciente acometido. Insisto que, para o diagnóstico de tais patologias, devem estar incluídos grande comprometimento da função social e incômodo para o indivíduo acometido. Nos demais casos, não são considerados doenças.